Globus faríngeo

O globus faríngeo, ou globus pharyngeus, é a sensação persistente ou intermitente de corpo estranho na garganta, geralmente sem disfagia e sem evidência de massa estrutural. 

Tipicamente, melhora com a deglutição, diferindo de obstruções orgânicas. O paciente descreve um “bolo” na garganta, sem dor relevante, odinofagia, disfagia verdadeira ou perda de peso. Exame físico e endoscópico costumam ser normais. Diretrizes o classificam como distúrbio funcional do eixo faringoesofágico.

Fisiopatologia

A etiologia é multifatorial.

Refluxo laringofaríngeo

Frequente associação com refluxo alto, possivelmente causando inflamação crônica e hipersensibilização aferente. A resposta inconsistente a IBPs indica papel contributivo, não exclusivo.

Disfunção do esfíncter esofágico superior

Hipertonia ou descoordenação do cricofaríngeo, com aumento pressórico em alguns casos. A sensação parece mais relacionada a alteração proprioceptiva do que a obstrução mecânica.

Hipersensibilidade visceral e central

Semelhante a distúrbios funcionais digestivos, com amplificação central das aferências e hipervigilância interoceptiva. Ansiedade e somatização são frequentes, sem implicar origem psicogênica obrigatória.

Disfunção muscular cervical funcional

A musculatura supra e infrahioidea participa da deglutição, tensão laríngea e estabilização do hioide. Hipertonias, co-contrações persistentes ou falha de automatização postural cervical podem alterar a relação hioide-laringe, aumentar o tônus laríngeo e modificar aferências proprioceptivas, reduzindo o limiar sensorial faríngeo. Há associação com hiperatividade cricofaríngea e tensão miofascial cervical.

Do ponto de vista neuroanatômico, aferências cervicais altas convergem com núcleos bulbares da deglutição e via aérea. Alterações tônicas podem modular esses circuitos, gerando sensação contínua de aperto ou corpo estranho sem lesão estrutural.

Assim, o globus pode emergir da integração entre estruturas cervicais, musculatura extrínseca laríngea (cadeias hioideas) e circuitos sensoriomotores bulbares, não se restringindo ao eixo faringoesofágico. Nesse contexto, globus e pigarro podem ser manifestações secundárias de desconforto sensorial persistente.

Alterações cervicais estruturais

Entre causas estruturais, destaca-se a hiperostose esquelética difusa idiopática (síndrome de Forestier/DISH), com ossificação do ligamento longitudinal anterior e formação de osteófitos cervicais anteriores volumosos, especialmente entre C3 e C6.

Embora classicamente ligada à disfagia mecânica, a forma cervical pode causar sensação persistente de corpo estranho, desconforto retrofaríngeo e pigarro frequente. O mecanismo envolve compressão da hipofaringe, redução do espaço retrofaríngeo e interferência na deglutição. Em alguns casos, o globus precede disfagia. Deve ser suspeitado em idosos com endoscopia normal e sintomas persistentes ou refratários.

Diagnóstico

A sensação costuma ser mais intensa em repouso e ao engolir saliva, melhorando com alimentos. Não há disfagia verdadeira e pode haver relação com estresse. Exame físico é geralmente normal.

Exames são guiados pelo contexto: videolaringoscopia, nasofibrolaringoscopia, videodeglutograma, manometria de alta resolução, pHmetria e endoscopia digestiva alta.

O diferencial inclui disfagia estrutural, refluxo, espasmo esofágico, ansiedade, distonia cervical funcional, além de excluir neoplasias e divertículo de Zenker.

Tratamento

Não há terapia curativa específica; a educação do paciente e a exclusão de neoplasia são centrais.

Pode-se considerar abordagem postural e reeducação muscular quando há componente cervical.

Inibidores da bomba de prótons podem ser testados em casos de refluxo.

Intervenções comportamentais têm benefício variável. Terapia cognitivo-comportamental e inibidores seletivos da recaptação de serotonina podem ajudar em casos selecionados.

Toxina botulínica no cricofaríngeo é opção nos raros casos de hipertonia ou falha de relaxamento documentada.

Assim, o globus pode ser entendido como distúrbio funcional sensoriomotor faríngeo, com alteração do tônus e da percepção. Surge quando há perda de automatização da deglutição e hipervigilância interoceptiva. Alterações cervicais, estruturais (como na DISH) ou funcionais, podem atuar como moduladores periféricos.

Mais do que condição esofágica distal ou psicogênica, representa desregulação da integração sensoriomotora faringolaríngea, envolvendo o esfíncter esofágico superior, o músculo cricofaríngeo e a modulação aferente, possivelmente influenciada por entradas cervicais.