Ronco e apneia do sono

Ronco 

O ronco é um som respiratório decorrente da vibração dos tecidos moles da via aérea superior durante o sono, causado por fluxo aéreo turbulento em segmento parcialmente colapsável da faringe (palato mole, úvula, pilares tonsilares e base da língua). Não é necessariamente patológico e pode ocorrer de forma primária ou integrar um espectro que evolui para apneia obstrutiva do sono (AOS).

No ronco isolado predomina o fenômeno vibratório. Já na AOS há colapso dinâmico recorrente da via aérea, com redução ou interrupção do fluxo, hipoxemia intermitente e fragmentação do sono.

Apneia do Sono

Define-se pela ocorrência repetida de apneia (cessação completa do fluxo) ou hipopneia (redução ≥30% por ≥10 s associada à dessaturação ≥3–4% e/ou microdespertar), conforme a Academia Brasileira do Sono.

Apneia Obstrutiva

Caracteriza-se por colapso da via aérea superior com esforço respiratório preservado. O drive ventilatório está presente, frequentemente elevado, mas a ventilação é ineficaz pela obstrução.

Apneia Central

Há ausência de esforço respiratório por falha do drive, gerado por redes bulbares (complexo pré-Bötzinger, grupos respiratórios dorsal e ventral), moduladas por quimiorreceptores centrais (CO₂/pH) e periféricos (O₂) e por influências corticais e comportamentais. O CO₂ é o principal determinante fisiológico do drive.

Durante o sono, o controle ventilatório se modifica: redução no NREM, instabilidade no REM e aumento abrupto no despertar. Assim, na AOS há drive elevado com ventilação reduzida; na apneia central, o drive diminui ou desaparece.

A avaliação do drive é indireta na prática clínica (esforço toracoabdominal, pressão esofágica, P0.1, overshoot ventilatório). Na apneia obstrutiva típica: colapso → ↑pCO₂ → ↑drive → aumento do esforço → despertar → hiperventilação compensatória.

Apneia Mista

Inicia com componente central seguido de obstrutivo.

Fisiopatologia da SAHOS

A síndrome da apneia e hipopneia obstrutiva do sono (SAHOS) resulta da interação de:

Anatomia desfavorável (macroglossia, hipertrofias, retrognatia, pescoço largo)

Redução do tônus dos dilatadores faríngeos (especialmente genioglosso)

Instabilidade do controle ventilatório (loop gain elevado)

Limiar de despertar baixo

Trata-se de distúrbio de colapsabilidade faríngea associado à instabilidade ventilatória e fragmentação do sono.

Epidemiologia e Clínica

A SAHOS moderada a grave afeta ~10–20% dos homens e 5–10% das mulheres, aumentando com idade, IMC e circunferência cervical, sendo subdiagnosticada.

Sintomas noturnos: ronco, pausas respiratórias, engasgos, sono fragmentado.

Sintomas diurnos: sonolência, cefaleia matinal, déficit cognitivo, irritabilidade.

Há fenótipo não sonolento com risco cardiovascular mantido.

Consequências

Associa-se a hipertensão resistente, fibrilação atrial, AVC, coronariopatia, diabetes tipo 2 e aumento da mortalidade. Mecanismos: hipóxia intermitente, ativação simpática, estresse oxidativo, inflamação e disfunção endotelial.

Diagnóstico

A polissonografia é padrão ouro, com cálculo do IAH: leve (5–14), moderada (15–29), grave (≥30). Testes domiciliares podem subestimar casos complexos. E são raramente indicados

Classificação do Ronco

Primário, SRVAS ou associado à SAHOS.

Avaliação Otorrinolaringológica e por Imagem

Inclui exame anatômico (septo, cornetos, tonsilas, Mallampati, mandíbula) e endoscopia do sono induzido para padrões de colapso.

A cefalometria em telerradiografia permite análise bidimensional das relações craniofaciais (SNA, SNB, PAS, MP-H), identificando predisposição anatômica. É útil, porém limitada por ser estática e em vigília.

Tratamento

Medidas gerais: perda de peso, evitar álcool, decúbito lateral, higiene do sono.

CPAP é padrão ouro, especialmente na SAHOS grave, com eficácia dependente da adesão.

Aparelhos intraorais em casos indicados promovem avanço mandibular.

Cirurgias, também em casos indicados conforme o fenótipo, incluem uvulopalatofaringoplastia, tonsilectomia, avanço maxilomandibular, entre outras.

Na apneia central, trata-se a causa; pode-se usar ventilação servo-adaptativa.

SRVAS e diagnóstico diferencial

A SRVAS cursa com IAH baixo, despertares frequentes e sono não reparador.

Diferenciais: insônia, depressão, narcolepsia, movimentos periódicos de membros, refluxo laringofaríngeo.

Integração Neurofuncional

A SAHOS pode ser entendida como falha da automatização ventilatória durante o sono. O controle ventilatório integra geradores bulbares, feedback quimiorreceptivo, mecânica da via aérea e modulação cortical. Com a retirada da vigilância, a estabilidade depende dos mecanismos automáticos; se vulneráveis, emerge o colapso, analogamente a outras falhas de automatização motora.

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